Há, entre tantas pessoas e fatos interessantes, algumas que se destacam pela simplicidade e beleza de suas atitudes. Coisas que passam despercebidas por outros, para mim, tornam-se inesquecíveis. Em algumas linhas filosóficas, não é a conseqüência do ato, ou do fato, que determinam seu valor. Mas está no desenrolar da ação que se pode perceber o quanto a pessoa está ou não desenvolvida. Este ano (de 2007) me trouxe grandes surpresas. Entre elas, os alunos que conheci no Colégio Módulo. Ao final do ano, para minha surpresa, percebi o quanto era querido por eles Em nossas reuniões semanais, sempre às sextas-feiras, conheci outros ex-alunos, ou simplesmente amigos da turma. Uma vez, uma garota que ali estava, em suas brincadeiras etílicas, saiu pedindo dinheiro para comprar um chapéu na loja ao lado (coisa de doido mesmo).
Veio à minha mesa. Foi à mesa ao lado. Rodou o bar todo. Conversou com o garçom. Pediu pra uns meninos que queriam paquerá-la. Fez e aconteceu. Sua beleza e encanto são indescritíveis. Seu belo sorriso, de tão gentil e cativante, só encontra similaridade na pureza das atitudes de uma criança. Difícil resistir a seu charme.
Vários minutos se passaram. Mais ou menos quarenta. Entre risadas e outras bobagens, eu e outros alunos discutíamos qualquer coisa de irrelevante, rindo de piadas infames, enquanto esta garota (Vittória Lapertosa é seu nome) saltitava de um lado pra outro na sua coleta.
Entretido com a conversa, eu apenas admirava o ânimo e a disposição na coleta (contribuí com 40 centavos).
Ela estava envolvida com seu trabalho, que levava a sério mesmo, argumentando a necessidade de doações mais consideráveis, voltando em todas as mesas. Achei divertido, mas já estava entretido com outros assuntos. Pra mim, ou era muita cerveja, ou o tal chapéu era encantado.
Porém, em certo momento, ela veio à mim. Mostrava a mão com várias moedas, e algumas notas. Contou e recontou: cinco reais e alguns centavos. - Olha, fessor! Consegui cinco reais! - e sorria o sorriso dos generais de César. Eu, com meus pensamentos enevoados de cevada, comentei: Puxa! Isto daria mais duas cervejas
- Não! Tenho idéia melhor.
Esperou, esperou, e entregou para uma senhora simples, que passava entre as mesas do bar. Falou com ela algumas palavras que não entendi, voltou-se para mim e disse: Ela precisa mais do que eu . Sou professor há 7 anos. Convivo com a literatura e arte desde antes da faculdade. Já me emocionei com filmes, quadros, músicas, ou peças de teatro. Mas, naquele momento, lá no fundo, um sentimento maravilhoso me comovia, e me enchia de orgulho, ao mesmo tempo. Eu não havia dado aula para ela, ela não era minha aluna, porém, sim, era minha aluna. Havia aprendido que não é o conhecimento que transforma as pessoas, mas as atitudes. Havia, sem querer, dado uma grande lição para mim, e para todos do bar (talvez só eu tenha reparado). Lição de humanidade, de altruísmo e bondade. Sem querer, ou querendo mesmo, pois creio que isto faça parte de sua natureza. Afinal de contas, é o processo da doação que valoriza a pessoa que doou. Sem receios, sem egoísmo, sem vaidade. Deu as costas, e foi levar seu sorriso para outro lugar. Eu, ali, sentado. Entre pasmo e comovido. Observava, feliz, o quanto as pessoas ainda são belas (ufa! às vezes fico meio desanimado com elas), pois em meio à tanta indiferença e individualismo de pessoas que se divertiam, alguém decidiu divertir-se ajudando a outros. Ela não sabe (talvez nunca saberá) o quanto isto me marcou. Um pequena atitude, que transformou um dia comum, em dia inesquecível.
E mais, na transcendência da atitude pude vislumbrar o sentido da frase do arquiteto Johanes (alguma coisa, vou ter de pesquisar) que diz: Deus está nos detalhes … E o gesto da doação inesperada, em um contexto adverso, assemelha-se muito aos gestos e pregações deixadas por Cristo, seus discípulos, e muitos outros grandes mestres religiosos do mundo.
Eis um caminho a se trilhar: o da doação, não somente dos bens, mas também de palavras e gestos.




