Ozzylândia: reino-comuna.

18 18UTC Maio 18UTC 2009

Crônica de uma entrevista de emprego

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 5:21 PM

Anderson Camedo, 42 anos. Professor de física. Formado e pós-graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais há 10 anos. Casado com Camila Celsius, 38 anos. Professora de química. Formada e pós-graduada também pela Universidade Federal de Minas Gerais na mesma época. Ambos se conheceram em uma das dezenas de vinhadas, sarais ou calouradas que ocorreram no campus.

Durante a graduação, eram parceiros em jogos , campeonatos de sinuca, truco e afins. Sempre eram os primeiros a idealizar uma saída para algum boteco (leia-se: Bar do Cabral, Bar do Real, ou, quando era pra ir longe, Maletta). Da partilha do D.A. – do ICEx, da Fafich e de outros – decidiram compartilhar um apartamento. O casamento ocorreu no 3 mês de gravidez.

Agora com três filhos, o casal continuava partilhando a sina da profissão: aulas pela manhã, tarde e noite, geralmente com contratos verbais – e os devidos atrasos no pagamento. A estabilidade em uma escola ou pré-vestibular era difícil, e a vantagem do casal era saber exatamente o que o outro passava. Estavam em dificuldades, mas conscientes do valor imenso que um sorriso, ou uma piadinha, tinha para quem havia enfrentado um dia inteiro ouvindo crianças e adolescentes conversando, gritando, xingando e, claro, desrespeitando ao professor. Tudo isto o motivava a buscar, todos os domingos, um anúncio de vaga para professor.

Era um dia tranquilo. O céu estava cheio de fumaça. Um calor infernal, com direito a pessoas se esbarrando nas calçadas em busca de sombra. Ao entrar na sala de entrevistas, numa primeira passada de olhos, ele percebeu que havia mais de 3 dúzias de candidatos. Só não deu as costas e foi embora, pois o lugar tinha ar condicionado e um bebedouro.

Sentado, observava o rosto de seus concorrentes e um pensamento  – tolo – de otimismo dizia que a maioria dos professores que ali estavam deveriam ser de outras disciplinas.

- “Vai ver tem gente de matemática, português e história por aqui… Professor de português, se balançar uma árvore na rua caem 8 de uma vez…” – pensou, com um sorriso sarcástico no canto da boca.

Veio a examinadora. Uma mocinha com seus 26 anos, provavelmente recém-formada em Pedagogia com ênfase em pedagogia empresarial. Usava uma calça jeans saint-topez, blusa branca colada que deixava aparecer o piercing no umbigo, blazer de linho e sapatos pretos de salto baixo. Enquanto se dirigia à frente do grupo, mexendo em alguns papeis, encerrava uma ligação para confirmar a compra do ingresso para o Axé Brasil, onde pessoas tem a chance de beijar e contrair 98 tipos diferentes de fungos, ainda não catalogados pela medicina.

“Bom dia!” – disse ela, sem tirar os olhos de uma ficha em sua mão – “Hoje vamos cadastrar apenas os candidatos à vaga de física para ensino fundamental. Temos 2 vagas, com 25 horas semanais e salário de 1000 reais mensais, sem vale-transporte ou refeição. Alguma pergunta?”

Acostumado como estava a cálculos, Anderson percebeu que eles estava pagando 10 reais a hora-aula, menos do que no ano passado. O que significava que era melhor do que ganhava em seu outro cursinho. Enquanto ela falava, ele deu uma passada de olhos em seus concorrentes e percebeu que eles pareciam tão interessados quanto um cachorro em frente do açougue, só esperando a carne cair para abocanhar.

A má notícia era que, sim, todos os que estavam ali eram professor de física. A boa, talvez, seria que ele era o mais velho no ambiente, e provavelmente o mais bem preparado.

… (continua)

Chorar na cama…

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 4:51 PM

mafalda_03

Pois é… Há dias, meses (ano?) não passo por aqui.

Que será? Acabou o estoque de inspiração? Foi-se a critividade?

Nada. Literalmente, nada.

Nenhuma palavra, frase ou parágrafo surge na mente. Um estado de animação suspensa me deixou distante da escrita. Isso sem motivo aparente, apenas um afastamento. Briguinha de colegas de 5a. série. Coisa que volta e meia retoma com a mesma intensidade.

Intensidade, inclusive, é o que tá faltando nas palavras. Pintá-las com cores vibrantes, vivas, vorazes. Escrever é mais que jogar palavras no texto (como estou fazendo agora). Há quem diga que é um ato de tecer palavras, criar fios e tramas. Bela metáfora. Ultimamente tem sido trabalho de pedreiro, que mistura areia com cimento e brita pra fazer o alicerce. Coisa braçal, com suor e dores musculares.

Creio que ter passado pelo mestrado me deixou esta impressão de esforço e desgaste na construção do texto. As palavras agora tem peso, textura e cheiro. Cheiro forte de erudição e academicismo. Se tivesse gosto, seria bem azedo, de travar a língua e fazer careta.

O negócio é voltar a cozinhar, digo, escrever por prazer. Inclusive, longe do horário de almoço, pois esta conversa de comida já tá me dando água na boca.

Volto em breve… (prometo que antes de uma semana)

PS: Por que uma imagem de Mafalda? Pois o que mais fiz nestes últimos dias foi chorar antes de escrever. Não literalmente, claro, mas, pior, por dentro. Cada escrita era uma oração de joelhos em cima do milho. Agora o castigo passou. Posso brincar no quintal novamente, com direito a andar descalço e subir nos galhos para pegar frutas maduras de Inspiração.

27 27UTC Fevereiro 27UTC 2009

Redação

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 5:37 PM

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos.

Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta. Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

8 08UTC Janeiro 08UTC 2009

Braços abertos

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 8:16 AM

Fico feliz de saber que você pode me receber assim, hospitaleiro, singelo e cúmplice.

Papel (tela) meu amigo(a).

Volto tímido, vergonhoso e culpado também, mas volto. Não poderia te abandonar. O que trago em mim destes vários ciclos não relatados é precioso, na verdade, vital para você, eu sei.

Estive tão leve e entregue ao novo prazer da paixão que me esqueci do meu ofício.

Mas voltei.

Hoje, um breve aperto de mãos, o inclinar da cabeça e um cafezinho. Amanhã, as palavras.

Prazer revê-lo.

Até!

26 26UTC Junho 26UTC 2008

Bula do Viagra

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 2:19 AM

Luis Fernando Veríssimo

Extraäo do site www.comstock.com

- Vai, Horácio. Toma logo.!!!
- Eu não tomo nada sem antes ler a bula. Cadê meus óculos?
- Pendurados no seu pescoço.
- Isso é ridículo, Maria Helena. Ridículo.
- Então todos os homens da sua idade são ridículos. Porque todos estão tomando. E não me puxa esse lençol, fazendo o favor. Olha aí o bololô que você me faz nas cobertas.
- A humanidade conseguiu crescer e se multiplicar durante milênios sem isso. Nós dois crescemos e nos multiplicamos sem isso. Taí o Pedro Paulo, taí o Zé Augusto que não me deixam mentir. Fora aquele aborto que você fez.
- Horácio, eu não vou discutir isso com você agora. Toma logo esse negócio!!!
- Isso aqui faz mal pro coração, sabia? Um monte de gente já morreu tentando dar uma trepadinha farmacêutica.
- Foi por uma boa causa. E não faz mal coisa nenhuma. Só pra quem é cardíaco e toma remédio. Você não é cardíaco. Nem coração você tem mais.
- Não começa, Maria Helena, não começa…
- Pode ficar sossegado que você não vai morrer do coração por causa dessa pilulinha.
- Eu vi num programa do GNT um velhinho de 92 anos que toma isso todo dia.
- Sério?
- Preciso de sexo, Horácio.
- Mas hoje é segunda, Maria Helena…
- Quero trepar. Foder. Ser comida por um macho de pau duro.
- Francamente, Maria Helena, que boca. Parece que saiu da zona.
- Quero ser penetrada, quero gozar!!!
- O sexo é uma ditadura, Maria Helena. A gente tá na idade de se livrar dela.
- Saudades da dita dura. Olha só, você me fez fazer um trocadilho de merda.
- Além do mais, Maria Helena, nós já tivemos um número mais do que suficiente de relações sexuais na vida, por qualquer padrão de referência, nacional ou estrangeiro. A quantidade de esperma que eu já gastei nesses anos todos com você dava pra encher a piscina aqui do prédio.
- Com o esperma que você ordenhou manualmente, talvez. O que o senhor gastou comigo não daria nem pra encher o bidê aqui de casa. Um penico, talvez. Até a metade…..
- Maria Helenaaaa………
- E faz quase um ano que não pinga uma gota lá dentro!
- Sossega o facho, mulher. Vai fazer yoga, tai chi chuan. Já ouviu falar em feng shui, bonsai, shiatsu?- Arranja um cachorro. Quer um cachorro? Um salsichinha?
- Quero um salsichão, Horácio. Olha aí: outra piadinha infame.
- É porque você está com idéia fixa nessa porcaria.
- Que porcaria?
- O sexo, Maria Helena, o sexo.
- Sabe o que mais que deu naquele programa sobre sexo, Horácio?
- Não estou interessado.
- Deu que as mulheres com vida sexual ativa têm muito menos chance de ter câncer. É científico.
- Come brócolis que é a mesma coisa, Maria Helena. Protege contra tudo que é câncer. Também é científico, sabia? E puxado no azeite, com alho, fica uma delícia.
- A que ponto chegamos, Horácio. Eu falando de sexo e você me vem com brócolis puxado no azeite!
- Com alho.
- Faça-me o favor, Horácio!
- Maria Helena, escuta aqui, você já tem 50 anos, minha filha, dois filhos adultos, já tirou um ovário, já…
- Não fiz 50 ainda. Não vem não. E o que é que filho e ovário têm a ver com sexo?
- Maria Helena, me escuta. Depois de uma certa idade as mulheres não precisam mais de sexo.
- Ah, não? Quem decidiu isso?
- Sexo nessa idade é pras imaturas. Pras deslumbradas, pras iludidas que não sabem envelhecer com dignidade.
- Prefiro envelhecer com orgasmos.
- O que é que o Freud não diria de você, Maria Helena.
- E de você, então, Horácio? No mínimo, que você virou gay depois de velho. Boiola.
- Maria Helena! Faça-me o favor. Eu tenho que ouvir isso na minha própria casa, na minha própria cama, diante da minha própria televisão?
- Aliás, gay gosta de trepar. É o que eles mais gostam de fazer. Você virou outra coisa, sei lá o quê. Um pingüim de geladeira, talvez.
- Maria Helena, dá um tempo, tá? Tenho mais o que fazer.
- Fazer? Essa é boa. O que é que um funcionário público aposentado com salário integral tem pra fazer na vida, posso saber?
- Sem comentários, Maria Helena, sem comentários.
- Tá bom, sem comentários. Bota os óculos e lê duma vez essa bendita bula.
- Só que precisa de dois óculos pra ler isso. Olha só o tamanhico da letra.
Se é um negócio pra velho, deviam botar uma letra bem grande. Pelo menos isso.
- Vira o foco do abajur para cá… assim… melhorou?
- Abaixa essa televisão também. Não consigo me concentrar ouvindo novela. Mais. Mais um pouco.
- Pronto, patrãozinho. Sem som. Vai, lê duma vez.
- O princípio ativo do medicamento é o citrato de sildenafil.
- Sei.
- Veículos excipientes: celulose microcristalina…Celulose vem da madeira.
- Pau, portanto. Bom sinal.
- Onde foi parar a sua pouca educação, Maria Helena?
- Vai lendo, Horácio. Depois conversamos sobre a minha pouca educação.
- Cros… camelose sádica. Croscamelose. Castrepa, Maria Helena. Recuso-me a tomar um troço com esse nome. Deve ser alguma secreção de camelo. Se não for coisa pior.
- Não é camelose. Num tá vendo aí? É caRmelose. Deve ser algum adoçante artificial. Pro seu pau ficar doce, meu bem.
- Putz! Só rindo mesmo. A menopausa acabou com a sua lucidez, Maria Helena.
- Troco toda a lucidez do mundo por um pau tinindo de tesão por mim.
- Absurdo, absurdo.
- Que mais, que mais, Horácio?
- Dióxido de titânio.
- Ah, titânio. Pro negócio ficar bem duro.
- Índigo carmim…
- Índigo? Deve ser o que dá o azul da pilulinha.
- Será que esse negócio não vai deixar o meu pau azul, Maria Helena?
- E daí, se deixar? Você não sai por aí exibindo o seu pênis, que eu saiba.
- Ou sai?
- Mas, e se eu for a um mictório público? O que é que o cara ao lado não vai pensar do meu pinto azul?
- Diz que você é um alienígena, ora bolas. Que o seu corpo está pouco a pouco se adaptando à Terra, que ainda faltam alguns detalhes. Ou explica que você é um nobre, de sangue e pinto azul. Ou não diz nada, ora bolas. Acaba de mijar, guarda o pinto azul e vai embora, pô!
- Escuta. Agora vem a parte que explica como esse petardo funciona.
- Isso. Quero ver esse petardo funcionando direitinho.
- Presta atenção. ‘O óxido nítrico, responsável pela ereção do pênis, ativa a enzima guanilato ciclase, que, por sua vez, induz um aumento dos níveis de monofosfato de guanosina cíclico, produzindo um relaxamento da musculatura lisa dos corpos cavernosos do pênis e permitindo assim o influxo de sangue.
- Cacete!!
- Corpos cavernosos. Já pensou, Maria Helena? Corpos cavernosos sendo inundados de sangue? Puro Zé do Caixão.
- Corpo cavernoso só pode ser herança do homem das cavernas. Vocês homens evoluem muito lentamente.
- Pára de viajar, Maria Helena. Parece que fumou maconha.
- Não era má idéia. Prá relaxar. Vou roubar do Pedro Paulo. Eu sei onde ele esconde. Podíamos fumar juntos.
- Eu já tô relaxado. Tô até com sono, pra falar a verdade.
- Lê, lê, lê, lê aí. ….Você já dormiu tudo a que tinha direito nessa vida.
- Vou ler. ‘Todavia, o sildenafil não exerce um efeito relaxante diretamente sobre os corpos cavernosos..:’
- Não?
- Não, Maria Helena. Ele apenas ‘aumenta o efeito relaxante do óxido nítrico através da inibição da fosfodiesterase- 5, a qual’ – veja bem, Maria Helena, veja bem – ‘a qual é a responsável, pela degradação do monofosfato de guanosina cíclico no corpo cavernoso?’
- Ouviu isso? Degradação, Maria Helena. Dentro dos meus próprios corpos cavernosos. Degradante…
- Degradante é pau mole.
- Olha o nível, Maria Helena, olha o nível. Vamos ver os efeitos colaterais….
- Olha lá: dor de cabeça. Você sabe muito bem que se tem uma coisa que eu não suporto na vida é dor de cabeça.
- Na cultura judaico-cristã é assim mesmo, Horácio. Pra cabeça de baixo gozar, a de cima tem que padecer.
- Não me venha com essa sua erudição de internet, Maria Helena. Estamos off-line.
- Deixa de ser criança, Horácio. Se der dor de cabeça você toma um Tylenol, reza uma ave-maria, canta o ‘Hava Naguila’; que passa.
- Outro efeito colateral: rubor. Rá, rá. Vou ficar com cara de quê, Maria Helena? De camarão no espeto?
- Se for camarão com espeto, tá ótimo. Que mais, que mais?
- Enjôos. Óh céus. Enjôos…
- Você sempre foi um tipo enjoado, Horácio. Ninguém vai notar a diferença.
- Vamos ver o que mais… hum… dispepsia. Que lindo! Vou trepar arrotando na sua cara.
- Você me come por trás. Arrota na minha nuca.
- É brincadeira… É essa a sua idéia de amor, Maria Helena?
- Isso não tem nada a ver com amor, Horácio. Já disse: é profilaxia contra o câncer. E arrotar, você já arrota mesmo o dia inteiro, sem a menor cerimônia. Na mesa, na sala, em qualquer lugar.
- Como se você não arrotasse, Maria Helena.
- Mas não fico trombeteando os meus arrotos. Isso é coisa de machão broxa.
- Em vez de trepar com a esposa, fica arrotando alto pra se sentir o cara do pedaço.
- Como você é simplória, Maria Helena, como você é… menor. Desculpe, mas acho que o seu cérebro anda encolhendo, sabia? Ou mofando. Ou as duas coisas.
- Vai, Horácio, chega de conversa mole. E de pau idem. Pula os efeitos colaterais.
- Como, ‘pula os efeitos colaterais’? É porque não é você quem vai tomar essa meleca, né? Vou ler até o fim. Os efeitos colaterais são a parte mais importante. Olha lá: gases. Que é que tá rindo aí?
- Do efeito cú-lateral. Desculpa. Esse foi de propósito. Não agüentei.
- Admiro seu humor refinado, Maria Helena. Torna você uma mulher tão mais sedutora, sabia?
- Obrigada, Horácio.
- Agora, quanto aos seus gases, pode relaxar o esfíncter, meu filho. Numa boa. Tô tão acostumada que até sinto falta quando estou sozinha. Sério. Fico pensando: Ah, se o Horácio estivesse aqui agora pra soltar uma bufa de feijoada com cerveja na minha cara…
- Maria Helena, qualquer dia você vai ganhar o Oscar da vulgaridade universal.
- Vou dedicar a você.
- Vamos ver que mais temos aqui em matéria de efeitos colaterais
- Ah! Congestão nasal. Que gracinha. Vou ficar fanho, que nem o Donald. Qüém, qüém. Qüém.
- Um pateta com voz de pato. Perfeito.
- Ridículo. Absurdo. Idiota.
- Ridículo você já é, Horácio. E quem não é? Além do mais, é só calar a boca que você não fica fanho.
- Ah, tá. E se eu quiser falar alguma coisa na hora?
- Você não diz nada de interessante há mais de dez anos, Horácio.. Vai dizer justo na hora de trepar?
- Eu não nasci para dizer coisas interessantes a você, Maria Helena
- Já percebi.
- Hum. Ouve só: diarréia!
- Quê?
- É outro efeito colateral dessa bomba aqui. Fala sério, Maria Helena. Isto aqui é um veneno. Não sei como eles vendem sem receita.
- Deixa de ser pueril, Horácio. Imagina se alguém vai ter todos os efeitos colaterais ao mesmo tempo. No máximo um ou dois.
- A caganeira e os arrotos, por exemplo? Ou a ânsia de vômito e os gases?
- Faz um cocozinho antes. Pra esvaziar. Agora, Horácio. Eu espero.
- Eu não estou com vontade de fazer cocozinho nenhum, Maria Helena! Faça-me o favor. E olha aqui, mais um efeito colateral: visão turva.
- Você bota os seus óculos de leitura. E que tanto você quer ver que já não viu?
- Maria Helena, você não entendeu? Essa droga perturba seriamente a visão. Vou ficar cego por sei lá quantas horas, quantos dias. E tudo por causa de uma reles trepadinha? E se a minha visão não voltar? Vou andar de bengala branca pro resto da vida?
- Pode deixar que eu guio a sua bengala, Horácio. Olha, pensa no lado bom da cegueira: você vai poder me imaginar 20 anos mais moça. Trinta, se quiser.
- Maria Helena, desisto. Não vou tomar essa porcaria e tá acabado.
- Dá aqui essa cartela, Horácio. Abre a boca. Pronto. Engole. Olha a água aqui. Isso. Que foi? Engasgou, amor?! Tosse pra lá,ô! Me borrifou toda! Que nojo! Quer que bata nas suas costas? Aí, meu Deus! Horácio? Você está bem? Respira fundo! Isso, isso… E aí, amor? Melhorou? Morrer afogado num copo d’água ia ser idiota demais, até prum cara como você.
- Arrr! E com essa pílula monstruosa entalada na garganta, ainda por cima!
Ufff! Me dá mais água…
- Quanto tempo isso aí demora pra fazer efeito?
- Isso aí o quê?
- A pílula, Horácio, a pílula.
- E eu sei lá?
- Vê na bula, Horácio.
- Hum… tá aqui: 30 minutos.
- Ótimo. Dá tempo de ver o fim da minha novela.

10 10UTC Janeiro 10UTC 2008

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 5:14 AM

Há, entre tantas pessoas e fatos interessantes, algumas que se destacam pela simplicidade e beleza de suas atitudes. Coisas que passam despercebidas por outros, para mim, tornam-se inesquecíveis.  Em algumas linhas filosóficas, não é a conseqüência do ato, ou do fato, que determinam seu valor. Mas está no desenrolar da ação que se pode perceber o quanto a pessoa está ou não desenvolvida.  Este ano (de 2007) me trouxe grandes surpresas. Entre elas, os alunos que conheci no Colégio Módulo. Ao final do ano, para minha surpresa, percebi o quanto era querido por eles  Em nossas reuniões semanais, sempre às sextas-feiras, conheci outros ex-alunos, ou simplesmente amigos da turma. Uma vez, uma garota que ali estava, em suas brincadeiras etílicas, saiu pedindo dinheiro para comprar um chapéu na loja ao lado (coisa de doido mesmo). vittoria-lapertosa.jpg Veio à minha mesa. Foi à mesa ao lado. Rodou o bar todo. Conversou com o garçom. Pediu pra uns meninos que queriam paquerá-la. Fez e aconteceu.  Sua beleza e encanto são indescritíveis. Seu belo sorriso, de tão gentil e cativante, só encontra similaridade na pureza das atitudes de uma criança. Difícil resistir a seu charme.

 Vários minutos se passaram. Mais ou menos quarenta. Entre risadas e outras bobagens, eu e outros alunos discutíamos qualquer coisa de irrelevante, rindo de piadas infames, enquanto esta garota (Vittória Lapertosa é seu nome) saltitava de um lado pra outro na sua coleta.

  Entretido com a conversa, eu apenas admirava o ânimo e a disposição na coleta (contribuí com 40 centavos).

 Ela estava envolvida com seu trabalho, que levava a sério mesmo, argumentando a necessidade de doações mais consideráveis, voltando em todas as mesas. Achei divertido, mas já estava entretido com outros assuntos. Pra mim, ou era muita cerveja, ou o tal chapéu era encantado.

  Porém, em certo momento, ela veio à mim.  Mostrava a mão com várias moedas, e algumas notas.  Contou e recontou: cinco reais e alguns centavos.   -  Olha, fessor! Consegui cinco reais!  - e sorria o sorriso dos generais de César.   Eu, com meus pensamentos enevoados de cevada, comentei:  Puxa! Isto daria mais duas cervejas

  -  Não! Tenho idéia melhor.

Esperou, esperou, e entregou para uma senhora simples, que passava entre as mesas do bar. Falou com ela algumas palavras que não entendi, voltou-se para mim e disse:  Ela precisa mais do que eu .  Sou professor há 7 anos. Convivo com a literatura e arte desde antes da faculdade. Já me emocionei com filmes, quadros, músicas, ou peças de teatro. Mas, naquele momento, lá no fundo, um sentimento maravilhoso me comovia, e me enchia de orgulho, ao mesmo tempo.  Eu não havia dado aula para ela, ela não era minha aluna, porém, sim, era minha aluna. Havia aprendido que não é o conhecimento que transforma as pessoas, mas as atitudes.  Havia, sem querer, dado uma grande lição para mim, e para todos do bar (talvez só eu tenha reparado). Lição de humanidade, de altruísmo e bondade.  Sem querer, ou querendo mesmo, pois creio que isto faça parte de sua natureza. Afinal de contas, é o processo da doação que valoriza a pessoa que doou. Sem receios, sem egoísmo, sem vaidade.  Deu as costas, e foi levar seu sorriso para outro lugar.  Eu, ali, sentado. Entre pasmo e comovido. Observava, feliz, o quanto as pessoas ainda são belas (ufa! às vezes fico meio desanimado com elas), pois em meio à tanta indiferença e individualismo de pessoas que se divertiam, alguém decidiu divertir-se ajudando a outros.  Ela não sabe (talvez nunca saberá) o quanto isto me marcou. Um pequena atitude, que transformou um dia comum, em dia inesquecível.

 E mais, na transcendência da atitude pude vislumbrar o sentido da frase do arquiteto Johanes (alguma coisa, vou ter de pesquisar) que diz:  Deus está nos detalhes … E o gesto da doação inesperada, em um contexto adverso, assemelha-se muito aos gestos e pregações deixadas por Cristo, seus discípulos, e muitos outros grandes mestres religiosos do mundo.

Eis um caminho a se trilhar: o da doação, não somente dos bens, mas também de palavras e gestos.

11 11UTC Dezembro 11UTC 2007

What Wonderful World (Louis Armstrong e Ramones)

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 4:03 AM

19 19UTC Novembro 19UTC 2007

Macho Alpha – parte I

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 3:49 AM

Macho Alpha - parte I

“Putz, cara… Você é grande… Malhado… Deve brigar muito” – ela falou, cortando nossa conversa sobre o filme Sociedade dos Poetas Mortos.

“Não necessariamente” – respondi, meio sem graça.

“Ah! Né possível!” – continuou “Você deve ser bem forte…. Deve ter um soco e tanto… O tapa então nossa!”.

Fiquei quieto, com um certo ar de curiosidade.

Nós estávamos saindo há algum tempo. Ela era uma garota linda, alta, magra, delicada, e professora também. A família de boa educação também. Pai engenheiro, mãe pedagoga. Os irmãos eram advogados. Havia frequentado ótimos colégios. Morado fora 5 anos. Solteira. Sem filhos. Workahoolic. Enfim, uma neurótica comum, como eu e você (segundo Freud).

“Bem… Não gosto de briga… Evito ao máximo… E tapas, só em determinadas horas, e em quem merece” – falei, brincando, pra disfarçar minha “sem-gracesa”.

“Adoraria!”

“Hãn?”

“Adoraria que você me batesse”.

“?”

“Sim. Curto homens fortes. Que pegam a gente assim… Puxando os cabelos… Dando tapas na bunda… Enfim, mostrando quem é que manda”.

E assim atuei seis meses. Às vezes, não conseguia entrar no clima de sado-maso no ar, e caia na gargalhada. Não durei muito tempo no cargo.

Contei esta história a um amigo meu, que morreu de rir. Ele também me contou que precisou “atuar” durante algum tempo em tarefas pouco comuns. Era o seguinte: ele tem outro amigo muito rico. Milionário. Mas que não gosta de dirigir. Tinha carro e carteira, mas deixava tudo na garagem. Daí, quando precisava sair, ligava pro meu amigo. Os dois se conheciam faz tempo. Amizade de infância.

Um belo dia, digo, noite (na verdade, uma e meia da manhã de sexta-feira), o milionário andante ligou pro meu amigo:

“Zeca! Onde você está?” – sem esperar resposta do meu amigo avisando que estava dormindo – o outro continuou “Dá pra você passar aqui no bar da Prudente de Morais? Tô com uma certa urgência”.

“Claro! Tô indo praí!” – Zé Carlos respondeu, já dando um pulo da cama e se vestindo.

Em dois minutos estava ligando o carro, e seguindo pela avenida Antônio Carlos em direção ao Centro. Preocupado se seu amigo estava em algum apuro, ou tendo enfarto. Dez minutos depois, vasculhava o bar à procura do cara. Encontrou. Estava sentado a um canto. Bêbado. Com duas mulheres ao lado: uma loira, e uma morena.

“Cara!… E que morena!” – nas palavras do próprio Zeca.

“Pôrra, cara! Você tá bem? O que foi? Quer ir ao médico?” – Zeca chegou, já preparando pra levantar o amigo.

“Tô ótimo!… Quer tirar essa mão daí?… Péra! … Senta aí pôrra!” – o milionário andante reclamava, enquanto se desviava de ser erguido pelo bom samaritano Zeca.

“Estas são Claudinha e Luiza. Elas são primas, estão morando aqui em Belo Horizonte há seis meses. Estudam Fisioterapia. Uma gosta de rock e a outra de sertanejo. Não sei quem gosta do quê, mas fodas também. Depois você descobre.” – explicou o rico bêbado.

“Mas pra quê você me tirou da cama à uma e meia da manhã então, inferno!” – Zeca esbravejou. Era bondoso, mas não era trouxa.

“Calma, Béti! Senta aí” – disse o rico, já pedindo a conta ao garçon.

“É o seguinte. Como o senhor pode ver, seu zero meia, eu tenho a companhia de duas belas mulheres… Como você sabe, não gosto de carros, e hoje não quero gastar dinheiro com táxi… Queria que você me desse carona pra um motel.”

“O quê? Tá maluco! Chama um táxi, pôrra!”

“Calma! Calma, pô! ´cê tá me deixando nervoso! Se te chamei aqui, é porque quero te dar uma grana pela vinda, pela ida ao motel, e pela sua volta pra casa…. E mais!” – o bêbado ergueu a mão pedindo silêncio, pois Zeca já ia falar uns 3 ou 10 palavrões – “Já estou ficando velho. Não darei conta das duas. Daí, quero sua ajuda, meu jovem, pra que estas duas não pensem que Belo Horizonte é terra de frouxo”.

Zeca ficou parado. Não acreditava que aquilo estava acontecendo, e seu cérebro mal começava a entender (meio lerdo de sono ainda).

“Portanto, vamos, Tigrão. Hoje é seu dia de sorte. Ou melhor, sua madrugada da sorte. Ganhou dinheiro e mulher bonita, mas, se não quiser, vai embora!”

E lá foram os quatro pra um dos motéis mais chiques de BH.

O fato se repetiu outras vezes. Algumas vezes, era só levar o milionário ao motel mesmo. Outras vezes, sobrava uma amiguinha, prima, vizinha, colega de trabalho pro Zeca. Os dias e horários das chamadas variavam: manhã de segunda-feira, tarde de quarta-feira, domingo de tarde, sábado à noite, Dia de Finados, Sete de Setembro, etc. Zeca já tava pensando em pedir carteira assinada e fundo de garantia. Mas, como seu emprego estava bom também (havia conseguido montar e administrar um bar aqui perto), a vida seguia serena.

É isso aí. Não importa o horário, local ou preferência por tapa ou cócegas, o importante é a satisfação da cliente.

12 12UTC Novembro 12UTC 2007

Mudança de pobre…

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 12:42 AM

Mudança que se preze é aquela que vai em caminhão de carroceria aberta, ou em caminhão baú com motorista que gosta de Roberto Carlos, e quer convencer o restante da população disto. Enquanto os vizinhos ficam na rua conversando e apontando o quê e onde deveria ser colocado, você fica maluco, pois as caixas pra guardar roupas acabaram, os móveis não vão caber, e vem chuva chegando.

Mais ou menos isto tá acontecendo com meu blog: resolvi mudar de endereço. Vizinhança barulhenta, voyeurs, muito trânsito e uma vontade imensa de postar, mas o Blogger não permitia.

Ainda preciso arrumar a casa, mas, como toda mudança de pobre, onde você – em seu novo lar – tenta remontar o guarda-roupas e/ou a cama, e só aí percebe que faltam parafusos, estou assim por aqui também.

Paciência. O importante é a festa de open house!

10 10UTC Outubro 10UTC 2007

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 3:48 AM

Ah! Esta minha miopia,
Que me mantem alheio a tudo e todos.
Mostrando apenas silhuetas esfumaçadas ao meu redor.
Ah! Esta miopia minha,
Que embaralha cores, formas e gestos.
Fazendo-me acreditar, que o aceno era pra mim,
Que o sorriso era pra mim,
Que o sinal era pra mim.
Ah! Minha miopia. Esta
Que põe meu cérebro a mil,
Imaginando mil coisas,
Interpretando mil coisas,
Sem nada saber ao certo.
Ah! Esta. Miopia. Minha.
Que fazendo-me ver sinais errados,
Desviar-me da rota comum,
Do cotidiano tranqüilo,
Me levou diretamente,
Sem dúvida, convicto e seguro,
A bater de cara na rígida placa
“NÃO!”.
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