Durante 3 anos estudei paradoxos, lógica, metalinguagem e outras coisas. Ao fim de muita leitura, uma conclusão (óbvia!): “Eu não sei nada.”
Minha defesa foi marcada pela minha total certeza de que, com ou sem críticas, eu preciso estudar muito mais do que já estudo.
Entre definições dicionarizadas e discussões filosóficas, encontrei na filosofia de Gilles Deleuze suporte teórico para discutir paradoxos e metalinguagens. Pois bem, confesso que durante todo este tempo não entendi lhufas do que ele estava falando, mesmo lendo 10 vezes o mesmo trecho.
Hoje encontrei a transcrição de uma apresentação feita como seminário na Unicamp. Três alunos apresentavam para o professor suas conclusões sobre o livro Lógica do Sentido, de Deleuze. Sinceramente, não haveria exemplo melhor do que os que foram apresentados ali. Agora compreendo melhor o que estudei durante tanto tempo. E, em dado momento, uma das componentes do grupo apresentou um fragmento de um livro chamado Clara Manhã de Quinta à Noite, dos autores Don Wood e Audrey Wood. Literatura infanto-juvenil que precisarei comprar.
Escolhi este tema (maluco) para estudar por perceber, nos escritos de Guimarães Rosa, expressões contraditórias, paradoxais. Ao estudar a vida do escritor, inclusive suas entrevistas, percebi seu fascínio em brincar com as palavras. Havia algo de alquímico em seus escritos, uma mágica nas suas construções. Depois descobri que Rosa escrevia por gostar de “brincar” com as palavras, expressões, ditados, enfim, dava um tom infantil (sem ser simplista) em construções extremamente complexas. A meu ver, esta escrita diferenciada de Rosa visava uma abstração, senão ruptura, com padrões e normas pré-estabelecidas na literatura de seu tempo.
Mas, voltando à transcrição do trabalho da Unicamp, eis um trecho da apresentação, retirada do livro Clara Manhã de Quinta à Noite:
“Numa clara manhã de quinta-feira à noite, acordei e sonhei que tinha morrido; meu galo vermelho põe um ovo e me chama cocorocó e me tira da cama; vesti a roupa para meu enterro, uma festa bem simples com muito luxo; os convidados contentes choram o tempo inteiro até os mais pobres cheios do dinheiro; quando a banda tocou gelatina de osso, todos nós sentamos para dançar, aí apareceu uma batata Argentina sem roupa com calça de gabardina; que bom ver você novamente – falei - e a primeira vista me apaixonei, vamos comer que morro de sede – ele disse – e de uma só bocada comi o infeliz; veja o que fez comigo – gritou o crocodilo – comeu o estranho, meu melhor amigo; eu não fiz isso – sorri arrependida – e não vou fazer de novo é o que lhe digo; como tenho pressa, demoro a contar, a batata Argentina pudemos salvar, aí o crocodilo fez o nosso casamento e ficamos solteiros no mesmo momento; eu sabia, sabia, eu tinha certeza, por isso gritei muito surpresa: aí vem um bebê sem nenhum cabelo com um topete na testa como um novelo; eu sou mentirosa, mas a estória é verdade e o fim acontece antes da metade; se você acreditou nessa mentira verdadeira recomece do fim toda brincadeira”.
Extraído de: www.fe.unicamp.br/dis/transversal/Transcricoes/II-Transcricao.doc
