Anderson Camedo, 42 anos. Professor de física. Formado e pós-graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais há 10 anos. Casado com Camila Celsius, 38 anos. Professora de química. Formada e pós-graduada também pela Universidade Federal de Minas Gerais na mesma época. Ambos se conheceram em uma das dezenas de vinhadas, sarais ou calouradas que ocorreram no campus.
Durante a graduação, eram parceiros em jogos , campeonatos de sinuca, truco e afins. Sempre eram os primeiros a idealizar uma saída para algum boteco (leia-se: Bar do Cabral, Bar do Real, ou, quando era pra ir longe, Maletta). Da partilha do D.A. – do ICEx, da Fafich e de outros – decidiram compartilhar um apartamento. O casamento ocorreu no 3 mês de gravidez.
Agora com três filhos, o casal continuava partilhando a sina da profissão: aulas pela manhã, tarde e noite, geralmente com contratos verbais – e os devidos atrasos no pagamento. A estabilidade em uma escola ou pré-vestibular era difícil, e a vantagem do casal era saber exatamente o que o outro passava. Estavam em dificuldades, mas conscientes do valor imenso que um sorriso, ou uma piadinha, tinha para quem havia enfrentado um dia inteiro ouvindo crianças e adolescentes conversando, gritando, xingando e, claro, desrespeitando ao professor. Tudo isto o motivava a buscar, todos os domingos, um anúncio de vaga para professor.
Era um dia tranquilo. O céu estava cheio de fumaça. Um calor infernal, com direito a pessoas se esbarrando nas calçadas em busca de sombra. Ao entrar na sala de entrevistas, numa primeira passada de olhos, ele percebeu que havia mais de 3 dúzias de candidatos. Só não deu as costas e foi embora, pois o lugar tinha ar condicionado e um bebedouro.
Sentado, observava o rosto de seus concorrentes e um pensamento – tolo – de otimismo dizia que a maioria dos professores que ali estavam deveriam ser de outras disciplinas.
- “Vai ver tem gente de matemática, português e história por aqui… Professor de português, se balançar uma árvore na rua caem 8 de uma vez…” – pensou, com um sorriso sarcástico no canto da boca.
Veio a examinadora. Uma mocinha com seus 26 anos, provavelmente recém-formada em Pedagogia com ênfase em pedagogia empresarial. Usava uma calça jeans saint-topez, blusa branca colada que deixava aparecer o piercing no umbigo, blazer de linho e sapatos pretos de salto baixo. Enquanto se dirigia à frente do grupo, mexendo em alguns papeis, encerrava uma ligação para confirmar a compra do ingresso para o Axé Brasil, onde pessoas tem a chance de beijar e contrair 98 tipos diferentes de fungos, ainda não catalogados pela medicina.
“Bom dia!” – disse ela, sem tirar os olhos de uma ficha em sua mão – “Hoje vamos cadastrar apenas os candidatos à vaga de física para ensino fundamental. Temos 2 vagas, com 25 horas semanais e salário de 1000 reais mensais, sem vale-transporte ou refeição. Alguma pergunta?”
Acostumado como estava a cálculos, Anderson percebeu que eles estava pagando 10 reais a hora-aula, menos do que no ano passado. O que significava que era melhor do que ganhava em seu outro cursinho. Enquanto ela falava, ele deu uma passada de olhos em seus concorrentes e percebeu que eles pareciam tão interessados quanto um cachorro em frente do açougue, só esperando a carne cair para abocanhar.
A má notícia era que, sim, todos os que estavam ali eram professor de física. A boa, talvez, seria que ele era o mais velho no ambiente, e provavelmente o mais bem preparado.
… (continua)