Ozzylândia: reino-comuna.

18 18UTC Maio 18UTC 2009

Crônica de uma entrevista de emprego

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 5:21 PM

Anderson Camedo, 42 anos. Professor de física. Formado e pós-graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais há 10 anos. Casado com Camila Celsius, 38 anos. Professora de química. Formada e pós-graduada também pela Universidade Federal de Minas Gerais na mesma época. Ambos se conheceram em uma das dezenas de vinhadas, sarais ou calouradas que ocorreram no campus.

Durante a graduação, eram parceiros em jogos , campeonatos de sinuca, truco e afins. Sempre eram os primeiros a idealizar uma saída para algum boteco (leia-se: Bar do Cabral, Bar do Real, ou, quando era pra ir longe, Maletta). Da partilha do D.A. – do ICEx, da Fafich e de outros – decidiram compartilhar um apartamento. O casamento ocorreu no 3 mês de gravidez.

Agora com três filhos, o casal continuava partilhando a sina da profissão: aulas pela manhã, tarde e noite, geralmente com contratos verbais – e os devidos atrasos no pagamento. A estabilidade em uma escola ou pré-vestibular era difícil, e a vantagem do casal era saber exatamente o que o outro passava. Estavam em dificuldades, mas conscientes do valor imenso que um sorriso, ou uma piadinha, tinha para quem havia enfrentado um dia inteiro ouvindo crianças e adolescentes conversando, gritando, xingando e, claro, desrespeitando ao professor. Tudo isto o motivava a buscar, todos os domingos, um anúncio de vaga para professor.

Era um dia tranquilo. O céu estava cheio de fumaça. Um calor infernal, com direito a pessoas se esbarrando nas calçadas em busca de sombra. Ao entrar na sala de entrevistas, numa primeira passada de olhos, ele percebeu que havia mais de 3 dúzias de candidatos. Só não deu as costas e foi embora, pois o lugar tinha ar condicionado e um bebedouro.

Sentado, observava o rosto de seus concorrentes e um pensamento  – tolo – de otimismo dizia que a maioria dos professores que ali estavam deveriam ser de outras disciplinas.

- “Vai ver tem gente de matemática, português e história por aqui… Professor de português, se balançar uma árvore na rua caem 8 de uma vez…” – pensou, com um sorriso sarcástico no canto da boca.

Veio a examinadora. Uma mocinha com seus 26 anos, provavelmente recém-formada em Pedagogia com ênfase em pedagogia empresarial. Usava uma calça jeans saint-topez, blusa branca colada que deixava aparecer o piercing no umbigo, blazer de linho e sapatos pretos de salto baixo. Enquanto se dirigia à frente do grupo, mexendo em alguns papeis, encerrava uma ligação para confirmar a compra do ingresso para o Axé Brasil, onde pessoas tem a chance de beijar e contrair 98 tipos diferentes de fungos, ainda não catalogados pela medicina.

“Bom dia!” – disse ela, sem tirar os olhos de uma ficha em sua mão – “Hoje vamos cadastrar apenas os candidatos à vaga de física para ensino fundamental. Temos 2 vagas, com 25 horas semanais e salário de 1000 reais mensais, sem vale-transporte ou refeição. Alguma pergunta?”

Acostumado como estava a cálculos, Anderson percebeu que eles estava pagando 10 reais a hora-aula, menos do que no ano passado. O que significava que era melhor do que ganhava em seu outro cursinho. Enquanto ela falava, ele deu uma passada de olhos em seus concorrentes e percebeu que eles pareciam tão interessados quanto um cachorro em frente do açougue, só esperando a carne cair para abocanhar.

A má notícia era que, sim, todos os que estavam ali eram professor de física. A boa, talvez, seria que ele era o mais velho no ambiente, e provavelmente o mais bem preparado.

… (continua)

Chorar na cama…

Arquivado em: Sem-categoria — ozzythewizard @ 4:51 PM

mafalda_03

Pois é… Há dias, meses (ano?) não passo por aqui.

Que será? Acabou o estoque de inspiração? Foi-se a critividade?

Nada. Literalmente, nada.

Nenhuma palavra, frase ou parágrafo surge na mente. Um estado de animação suspensa me deixou distante da escrita. Isso sem motivo aparente, apenas um afastamento. Briguinha de colegas de 5a. série. Coisa que volta e meia retoma com a mesma intensidade.

Intensidade, inclusive, é o que tá faltando nas palavras. Pintá-las com cores vibrantes, vivas, vorazes. Escrever é mais que jogar palavras no texto (como estou fazendo agora). Há quem diga que é um ato de tecer palavras, criar fios e tramas. Bela metáfora. Ultimamente tem sido trabalho de pedreiro, que mistura areia com cimento e brita pra fazer o alicerce. Coisa braçal, com suor e dores musculares.

Creio que ter passado pelo mestrado me deixou esta impressão de esforço e desgaste na construção do texto. As palavras agora tem peso, textura e cheiro. Cheiro forte de erudição e academicismo. Se tivesse gosto, seria bem azedo, de travar a língua e fazer careta.

O negócio é voltar a cozinhar, digo, escrever por prazer. Inclusive, longe do horário de almoço, pois esta conversa de comida já tá me dando água na boca.

Volto em breve… (prometo que antes de uma semana)

PS: Por que uma imagem de Mafalda? Pois o que mais fiz nestes últimos dias foi chorar antes de escrever. Não literalmente, claro, mas, pior, por dentro. Cada escrita era uma oração de joelhos em cima do milho. Agora o castigo passou. Posso brincar no quintal novamente, com direito a andar descalço e subir nos galhos para pegar frutas maduras de Inspiração.

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