
“Putz, cara… Você é grande… Malhado… Deve brigar muito” – ela falou, cortando nossa conversa sobre o filme Sociedade dos Poetas Mortos.
“Não necessariamente” – respondi, meio sem graça.
“Ah! Né possível!” – continuou “Você deve ser bem forte…. Deve ter um soco e tanto… O tapa então nossa!”.
Fiquei quieto, com um certo ar de curiosidade.
Nós estávamos saindo há algum tempo. Ela era uma garota linda, alta, magra, delicada, e professora também. A família de boa educação também. Pai engenheiro, mãe pedagoga. Os irmãos eram advogados. Havia frequentado ótimos colégios. Morado fora 5 anos. Solteira. Sem filhos. Workahoolic. Enfim, uma neurótica comum, como eu e você (segundo Freud).
“Bem… Não gosto de briga… Evito ao máximo… E tapas, só em determinadas horas, e em quem merece” – falei, brincando, pra disfarçar minha “sem-gracesa”.
“Adoraria!”
“Hãn?”
“Adoraria que você me batesse”.
“?”
“Sim. Curto homens fortes. Que pegam a gente assim… Puxando os cabelos… Dando tapas na bunda… Enfim, mostrando quem é que manda”.
E assim atuei seis meses. Às vezes, não conseguia entrar no clima de sado-maso no ar, e caia na gargalhada. Não durei muito tempo no cargo.
Contei esta história a um amigo meu, que morreu de rir. Ele também me contou que precisou “atuar” durante algum tempo em tarefas pouco comuns. Era o seguinte: ele tem outro amigo muito rico. Milionário. Mas que não gosta de dirigir. Tinha carro e carteira, mas deixava tudo na garagem. Daí, quando precisava sair, ligava pro meu amigo. Os dois se conheciam faz tempo. Amizade de infância.
Um belo dia, digo, noite (na verdade, uma e meia da manhã de sexta-feira), o milionário andante ligou pro meu amigo:
“Zeca! Onde você está?” – sem esperar resposta do meu amigo avisando que estava dormindo – o outro continuou “Dá pra você passar aqui no bar da Prudente de Morais? Tô com uma certa urgência”.
“Claro! Tô indo praí!” – Zé Carlos respondeu, já dando um pulo da cama e se vestindo.
Em dois minutos estava ligando o carro, e seguindo pela avenida Antônio Carlos em direção ao Centro. Preocupado se seu amigo estava em algum apuro, ou tendo enfarto. Dez minutos depois, vasculhava o bar à procura do cara. Encontrou. Estava sentado a um canto. Bêbado. Com duas mulheres ao lado: uma loira, e uma morena.
“Cara!… E que morena!” – nas palavras do próprio Zeca.
“Pôrra, cara! Você tá bem? O que foi? Quer ir ao médico?” – Zeca chegou, já preparando pra levantar o amigo.
“Tô ótimo!… Quer tirar essa mão daí?… Péra! … Senta aí pôrra!” – o milionário andante reclamava, enquanto se desviava de ser erguido pelo bom samaritano Zeca.
“Estas são Claudinha e Luiza. Elas são primas, estão morando aqui em Belo Horizonte há seis meses. Estudam Fisioterapia. Uma gosta de rock e a outra de sertanejo. Não sei quem gosta do quê, mas fodas também. Depois você descobre.” – explicou o rico bêbado.
“Mas pra quê você me tirou da cama à uma e meia da manhã então, inferno!” – Zeca esbravejou. Era bondoso, mas não era trouxa.
“Calma, Béti! Senta aí” – disse o rico, já pedindo a conta ao garçon.
“É o seguinte. Como o senhor pode ver, seu zero meia, eu tenho a companhia de duas belas mulheres… Como você sabe, não gosto de carros, e hoje não quero gastar dinheiro com táxi… Queria que você me desse carona pra um motel.”
“O quê? Tá maluco! Chama um táxi, pôrra!”
“Calma! Calma, pô! ´cê tá me deixando nervoso! Se te chamei aqui, é porque quero te dar uma grana pela vinda, pela ida ao motel, e pela sua volta pra casa…. E mais!” – o bêbado ergueu a mão pedindo silêncio, pois Zeca já ia falar uns 3 ou 10 palavrões – “Já estou ficando velho. Não darei conta das duas. Daí, quero sua ajuda, meu jovem, pra que estas duas não pensem que Belo Horizonte é terra de frouxo”.
Zeca ficou parado. Não acreditava que aquilo estava acontecendo, e seu cérebro mal começava a entender (meio lerdo de sono ainda).
“Portanto, vamos, Tigrão. Hoje é seu dia de sorte. Ou melhor, sua madrugada da sorte. Ganhou dinheiro e mulher bonita, mas, se não quiser, vai embora!”
E lá foram os quatro pra um dos motéis mais chiques de BH.
O fato se repetiu outras vezes. Algumas vezes, era só levar o milionário ao motel mesmo. Outras vezes, sobrava uma amiguinha, prima, vizinha, colega de trabalho pro Zeca. Os dias e horários das chamadas variavam: manhã de segunda-feira, tarde de quarta-feira, domingo de tarde, sábado à noite, Dia de Finados, Sete de Setembro, etc. Zeca já tava pensando em pedir carteira assinada e fundo de garantia. Mas, como seu emprego estava bom também (havia conseguido montar e administrar um bar aqui perto), a vida seguia serena.
É isso aí. Não importa o horário, local ou preferência por tapa ou cócegas, o importante é a satisfação da cliente.