Ozzylândia: reino-comuna.

20 20UTC novembro 20UTC 2009

Desconcerto

Filed under: Sem-categoria — ozzythewizard @ 5:48 AM

Hoje fiquei meio encabulado.

Motivo simples, besta, talvez, alguém poderia dizer: meu vizinho morreu.

Rapaz com 24 anos, faria aniversário no início de dezembro. Simpático, educado, gentil, do tipo que – chova ou faça sol – sempre te cumprimentava com um sorriso no rosto. Rosto simples, comum, brasileiro. Vestes simples, sempre de boné. Acabara de conseguir emprego de motoboy, e inclusive já havia feito uma entrega para mim semana passada.

“Ficou 12 reais, mas fica por 10 para ganhar o freguês!” – sendo que já havia ganho o freguês (eu) simplesmente pela eficiência e sorriso no rosto com que foi e voltou debaixo de chuva. Após guardar o dinheiro na carteira, limpou os óculos para colocar no rosto, já com o capacete na cabeça. Daí reparei que os óculos estavam quebrados, faltando uma perna. Perguntei se não iria fazer um exame de vista “Hoje mesmo, às quatro horas da tarde”. Era o meio da tarde de quarta-feira, dia 11 de novembro. Fiquei encabulado com aquilo, e me comprometi em pegar a receita e aviar óculos novo para ele esta semana. Bastava me entregar a receita em casa, que eu providenciaria os óculos.

Não entregou.

Hoje de tarde, enquanto trabalhava, passaram duas viaturas do SAMU com sirenes gritando “Sai! Sai! Sai!” na frente de minha janela. “Alguém está mal por aí” – pensei. Era ele. Estava a 40 metros da minha janela, caído. Quando saí para ver, já o haviam recolhido. Os amigos atordoados, minha irmã perdida, eu sem saber o que dizer ou fazer. Os vizinhos me contaram que ele sentiu-se mal, caiu da moto. A ambulância tentou reanimá-lo, ele voltou, mas não resistiu. Uns dizem que já estava muito doente, com uma infecção forte na barriga (sem dinheiro para tratar). Outros que era problemas com bebida. Outros com cola. Os que viram, chamaram a ambulância e ficaram observando-o. “Ele era a morte com ilhas por todos os lados” – como diria Guimarães Rosa. É deste autor também a frase “as pessoas não morem, ficam encantadas”.

Visitei sua casa agora a pouco, perto das 22:30. Vi tios, primos, avó, cunhado, sobrinha, vizinho, cachorro, paredes rotas, casa simples, panela no fogo para alimentar aos que foram prestar homenagem.

Minha cara não estava ruim, conversei rápido: “Meus pêsames!” – “Que Deus te conforte” e frases-feitas, assim, para tentar dar cor aonde não há mais.

A mãe inconsolável. O rosto rubro com olhos inchados de quem começava a sentir o peso da saudade e  a dor da perda. Mãe dói no parto, mas dói ainda mais na morte.

Voltando pra casa, mais depoimento de minha mãe e irmãs sobre seus feitos: trazer as compras para minha irmã, morro acima; atravessar minha mãe na avenida principal; ajudar a abrir um portão; sorrir, cumprimentar, fazer o dia melhor.

“Todo sorriso traz música” – um dia alguém falou. Se é assim, Fabinho era músico nato.

“Todo sorriso faz música” – acho que é uma variante com sentidos-sentimentos parecidos, mas com gostos diferentes (algo como mel e pão de mel).

Hoje uma orquestra parou. Desconcerto.

Vim deixar minha homenagem, pois sei que a matéria perece, o espírito descansa, mas algo permanece para os vivos. Ele sofreu o “encantamento” roseano. “Mentiu que morreu” – por alguns instantes. Mas é seu sorriso, humildade, gentileza e carinho no trato com todas as pessoas. Como foi comigo, minha mãe, irmãs e familiares.

Resctate in pace. Rest in peace. Descanse em paz.

Seus óculos ficaram comigo, para que eu possa ver o mundo pelas lentes da ternura e alegria constante, onde cada pequena conquista será saboreada com intensidade, e os obstáculos serão apenas sinais de “pare” na estrada que preciso percorrer.

18 18UTC maio 18UTC 2009

Crônica de uma entrevista de emprego

Filed under: Sem-categoria — ozzythewizard @ 5:21 PM

Anderson Camedo, 42 anos. Professor de física. Formado e pós-graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais há 10 anos. Casado com Camila Celsius, 38 anos. Professora de química. Formada e pós-graduada também pela Universidade Federal de Minas Gerais na mesma época. Ambos se conheceram em uma das dezenas de vinhadas, sarais ou calouradas que ocorreram no campus.

Durante a graduação, eram parceiros em jogos , campeonatos de sinuca, truco e afins. Sempre eram os primeiros a idealizar uma saída para algum boteco (leia-se: Bar do Cabral, Bar do Real, ou, quando era pra ir longe, Maletta). Da partilha do D.A. – do ICEx, da Fafich e de outros – decidiram compartilhar um apartamento. O casamento ocorreu no 3 mês de gravidez.

Agora com três filhos, o casal continuava partilhando a sina da profissão: aulas pela manhã, tarde e noite, geralmente com contratos verbais – e os devidos atrasos no pagamento. A estabilidade em uma escola ou pré-vestibular era difícil, e a vantagem do casal era saber exatamente o que o outro passava. Estavam em dificuldades, mas conscientes do valor imenso que um sorriso, ou uma piadinha, tinha para quem havia enfrentado um dia inteiro ouvindo crianças e adolescentes conversando, gritando, xingando e, claro, desrespeitando ao professor. Tudo isto o motivava a buscar, todos os domingos, um anúncio de vaga para professor.

Era um dia tranquilo. O céu estava cheio de fumaça. Um calor infernal, com direito a pessoas se esbarrando nas calçadas em busca de sombra. Ao entrar na sala de entrevistas, numa primeira passada de olhos, ele percebeu que havia mais de 3 dúzias de candidatos. Só não deu as costas e foi embora, pois o lugar tinha ar condicionado e um bebedouro.

Sentado, observava o rosto de seus concorrentes e um pensamento  – tolo – de otimismo dizia que a maioria dos professores que ali estavam deveriam ser de outras disciplinas.

- “Vai ver tem gente de matemática, português e história por aqui… Professor de português, se balançar uma árvore na rua caem 8 de uma vez…” – pensou, com um sorriso sarcástico no canto da boca.

Veio a examinadora. Uma mocinha com seus 26 anos, provavelmente recém-formada em Pedagogia com ênfase em pedagogia empresarial. Usava uma calça jeans saint-topez, blusa branca colada que deixava aparecer o piercing no umbigo, blazer de linho e sapatos pretos de salto baixo. Enquanto se dirigia à frente do grupo, mexendo em alguns papeis, encerrava uma ligação para confirmar a compra do ingresso para o Axé Brasil, onde pessoas tem a chance de beijar e contrair 98 tipos diferentes de fungos, ainda não catalogados pela medicina.

“Bom dia!” – disse ela, sem tirar os olhos de uma ficha em sua mão – “Hoje vamos cadastrar apenas os candidatos à vaga de física para ensino fundamental. Temos 2 vagas, com 25 horas semanais e salário de 1000 reais mensais, sem vale-transporte ou refeição. Alguma pergunta?”

Acostumado como estava a cálculos, Anderson percebeu que eles estava pagando 10 reais a hora-aula, menos do que no ano passado. O que significava que era melhor do que ganhava em seu outro cursinho. Enquanto ela falava, ele deu uma passada de olhos em seus concorrentes e percebeu que eles pareciam tão interessados quanto um cachorro em frente do açougue, só esperando a carne cair para abocanhar.

A má notícia era que, sim, todos os que estavam ali eram professor de física. A boa, talvez, seria que ele era o mais velho no ambiente, e provavelmente o mais bem preparado.

… (continua)

Chorar na cama…

Filed under: Sem-categoria — ozzythewizard @ 4:51 PM

mafalda_03

Pois é… Há dias, meses (ano?) não passo por aqui.

Que será? Acabou o estoque de inspiração? Foi-se a critividade?

Nada. Literalmente, nada.

Nenhuma palavra, frase ou parágrafo surge na mente. Um estado de animação suspensa me deixou distante da escrita. Isso sem motivo aparente, apenas um afastamento. Briguinha de colegas de 5a. série. Coisa que volta e meia retoma com a mesma intensidade.

Intensidade, inclusive, é o que tá faltando nas palavras. Pintá-las com cores vibrantes, vivas, vorazes. Escrever é mais que jogar palavras no texto (como estou fazendo agora). Há quem diga que é um ato de tecer palavras, criar fios e tramas. Bela metáfora. Ultimamente tem sido trabalho de pedreiro, que mistura areia com cimento e brita pra fazer o alicerce. Coisa braçal, com suor e dores musculares.

Creio que ter passado pelo mestrado me deixou esta impressão de esforço e desgaste na construção do texto. As palavras agora tem peso, textura e cheiro. Cheiro forte de erudição e academicismo. Se tivesse gosto, seria bem azedo, de travar a língua e fazer careta.

O negócio é voltar a cozinhar, digo, escrever por prazer. Inclusive, longe do horário de almoço, pois esta conversa de comida já tá me dando água na boca.

Volto em breve… (prometo que antes de uma semana)

PS: Por que uma imagem de Mafalda? Pois o que mais fiz nestes últimos dias foi chorar antes de escrever. Não literalmente, claro, mas, pior, por dentro. Cada escrita era uma oração de joelhos em cima do milho. Agora o castigo passou. Posso brincar no quintal novamente, com direito a andar descalço e subir nos galhos para pegar frutas maduras de Inspiração.

27 27UTC fevereiro 27UTC 2009

Redação

Filed under: Sem-categoria — ozzythewizard @ 5:37 PM

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos.

Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta. Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

8 08UTC janeiro 08UTC 2009

Braços abertos

Filed under: Sem-categoria — ozzythewizard @ 8:16 AM

Fico feliz de saber que você pode me receber assim, hospitaleiro, singelo e cúmplice.

Papel (tela) meu amigo(a).

Volto tímido, vergonhoso e culpado também, mas volto. Não poderia te abandonar. O que trago em mim destes vários ciclos não relatados é precioso, na verdade, vital para você, eu sei.

Estive tão leve e entregue ao novo prazer da paixão que me esqueci do meu ofício.

Mas voltei.

Hoje, um breve aperto de mãos, o inclinar da cabeça e um cafezinho. Amanhã, as palavras.

Prazer revê-lo.

Até!

4 04UTC julho 04UTC 2008

Numa clara manhã de quinta-feira à noite…

Filed under: Poesias — ozzythewizard @ 8:03 PM

Durante 3 anos estudei paradoxos, lógica, metalinguagem e outras coisas. Ao fim de muita leitura, uma conclusão (óbvia!): “Eu não sei nada.”

Minha defesa foi marcada pela minha total certeza de que, com ou sem críticas, eu preciso estudar muito mais do que já estudo.

Entre definições dicionarizadas e discussões filosóficas, encontrei na filosofia de Gilles Deleuze suporte teórico para discutir paradoxos e metalinguagens. Pois bem, confesso que durante todo este tempo não entendi lhufas do que ele estava falando, mesmo lendo 10 vezes o mesmo trecho.

Hoje encontrei a transcrição de uma apresentação feita como seminário na Unicamp. Três alunos apresentavam para o professor suas conclusões sobre o livro Lógica do Sentido, de Deleuze. Sinceramente, não haveria exemplo melhor do que os que foram apresentados ali. Agora compreendo melhor o que estudei durante tanto tempo. E, em dado momento, uma das componentes do grupo apresentou um fragmento de um livro chamado Clara Manhã de Quinta à Noite, dos autores Don Wood e Audrey Wood. Literatura infanto-juvenil que precisarei comprar.

Escolhi este tema (maluco) para estudar por perceber, nos escritos de Guimarães Rosa, expressões contraditórias, paradoxais. Ao estudar a vida do escritor, inclusive suas entrevistas, percebi seu fascínio em brincar com as palavras. Havia algo de alquímico em seus escritos, uma mágica nas suas construções. Depois descobri que Rosa escrevia por gostar de “brincar” com as palavras, expressões, ditados, enfim, dava um tom infantil (sem ser simplista) em construções extremamente complexas. A meu ver, esta escrita diferenciada de Rosa visava uma abstração, senão ruptura, com padrões e normas pré-estabelecidas na literatura de seu tempo.

Mas, voltando à transcrição do trabalho da Unicamp, eis um trecho da apresentação, retirada do livro Clara Manhã de Quinta à Noite:

“Numa clara manhã de quinta-feira à noite, acordei e sonhei que tinha morrido; meu galo vermelho põe um ovo e me chama cocorocó  e me tira da cama; vesti a roupa para meu enterro, uma festa bem simples com muito luxo; os convidados contentes choram o tempo inteiro até os mais pobres cheios do dinheiro; quando a banda tocou gelatina de osso, todos nós sentamos para dançar, aí apareceu uma batata Argentina sem roupa com calça de gabardina; que bom ver você novamente – falei -  e a primeira vista me apaixonei, vamos comer que morro de sede – ele disse – e de uma só bocada comi o infeliz; veja o que fez comigo – gritou o crocodilo – comeu o estranho, meu melhor amigo; eu não fiz isso – sorri arrependida – e não vou fazer de novo é o que lhe digo; como tenho pressa, demoro a contar, a batata Argentina pudemos salvar, aí o crocodilo fez o nosso casamento e ficamos solteiros no mesmo momento; eu sabia, sabia, eu tinha certeza, por isso gritei muito surpresa: aí vem um bebê sem nenhum cabelo com um topete na testa como um novelo; eu sou mentirosa, mas a estória é verdade e o fim acontece antes da metade; se você acreditou nessa mentira verdadeira recomece do fim toda brincadeira”.

Extraído de: www.fe.unicamp.br/dis/transversal/Transcricoes/II-Transcricao.doc

26 26UTC junho 26UTC 2008

Bula do Viagra

Filed under: Sem-categoria — ozzythewizard @ 2:19 AM

Luis Fernando Veríssimo

Extraäo do site www.comstock.com

- Vai, Horácio. Toma logo.!!!
- Eu não tomo nada sem antes ler a bula. Cadê meus óculos?
- Pendurados no seu pescoço.
- Isso é ridículo, Maria Helena. Ridículo.
- Então todos os homens da sua idade são ridículos. Porque todos estão tomando. E não me puxa esse lençol, fazendo o favor. Olha aí o bololô que você me faz nas cobertas.
- A humanidade conseguiu crescer e se multiplicar durante milênios sem isso. Nós dois crescemos e nos multiplicamos sem isso. Taí o Pedro Paulo, taí o Zé Augusto que não me deixam mentir. Fora aquele aborto que você fez.
- Horácio, eu não vou discutir isso com você agora. Toma logo esse negócio!!!
- Isso aqui faz mal pro coração, sabia? Um monte de gente já morreu tentando dar uma trepadinha farmacêutica.
- Foi por uma boa causa. E não faz mal coisa nenhuma. Só pra quem é cardíaco e toma remédio. Você não é cardíaco. Nem coração você tem mais.
- Não começa, Maria Helena, não começa…
- Pode ficar sossegado que você não vai morrer do coração por causa dessa pilulinha.
- Eu vi num programa do GNT um velhinho de 92 anos que toma isso todo dia.
- Sério?
- Preciso de sexo, Horácio.
- Mas hoje é segunda, Maria Helena…
- Quero trepar. Foder. Ser comida por um macho de pau duro.
- Francamente, Maria Helena, que boca. Parece que saiu da zona.
- Quero ser penetrada, quero gozar!!!
- O sexo é uma ditadura, Maria Helena. A gente tá na idade de se livrar dela.
- Saudades da dita dura. Olha só, você me fez fazer um trocadilho de merda.
- Além do mais, Maria Helena, nós já tivemos um número mais do que suficiente de relações sexuais na vida, por qualquer padrão de referência, nacional ou estrangeiro. A quantidade de esperma que eu já gastei nesses anos todos com você dava pra encher a piscina aqui do prédio.
- Com o esperma que você ordenhou manualmente, talvez. O que o senhor gastou comigo não daria nem pra encher o bidê aqui de casa. Um penico, talvez. Até a metade…..
- Maria Helenaaaa………
- E faz quase um ano que não pinga uma gota lá dentro!
- Sossega o facho, mulher. Vai fazer yoga, tai chi chuan. Já ouviu falar em feng shui, bonsai, shiatsu?- Arranja um cachorro. Quer um cachorro? Um salsichinha?
- Quero um salsichão, Horácio. Olha aí: outra piadinha infame.
- É porque você está com idéia fixa nessa porcaria.
- Que porcaria?
- O sexo, Maria Helena, o sexo.
- Sabe o que mais que deu naquele programa sobre sexo, Horácio?
- Não estou interessado.
- Deu que as mulheres com vida sexual ativa têm muito menos chance de ter câncer. É científico.
- Come brócolis que é a mesma coisa, Maria Helena. Protege contra tudo que é câncer. Também é científico, sabia? E puxado no azeite, com alho, fica uma delícia.
- A que ponto chegamos, Horácio. Eu falando de sexo e você me vem com brócolis puxado no azeite!
- Com alho.
- Faça-me o favor, Horácio!
- Maria Helena, escuta aqui, você já tem 50 anos, minha filha, dois filhos adultos, já tirou um ovário, já…
- Não fiz 50 ainda. Não vem não. E o que é que filho e ovário têm a ver com sexo?
- Maria Helena, me escuta. Depois de uma certa idade as mulheres não precisam mais de sexo.
- Ah, não? Quem decidiu isso?
- Sexo nessa idade é pras imaturas. Pras deslumbradas, pras iludidas que não sabem envelhecer com dignidade.
- Prefiro envelhecer com orgasmos.
- O que é que o Freud não diria de você, Maria Helena.
- E de você, então, Horácio? No mínimo, que você virou gay depois de velho. Boiola.
- Maria Helena! Faça-me o favor. Eu tenho que ouvir isso na minha própria casa, na minha própria cama, diante da minha própria televisão?
- Aliás, gay gosta de trepar. É o que eles mais gostam de fazer. Você virou outra coisa, sei lá o quê. Um pingüim de geladeira, talvez.
- Maria Helena, dá um tempo, tá? Tenho mais o que fazer.
- Fazer? Essa é boa. O que é que um funcionário público aposentado com salário integral tem pra fazer na vida, posso saber?
- Sem comentários, Maria Helena, sem comentários.
- Tá bom, sem comentários. Bota os óculos e lê duma vez essa bendita bula.
- Só que precisa de dois óculos pra ler isso. Olha só o tamanhico da letra.
Se é um negócio pra velho, deviam botar uma letra bem grande. Pelo menos isso.
- Vira o foco do abajur para cá… assim… melhorou?
- Abaixa essa televisão também. Não consigo me concentrar ouvindo novela. Mais. Mais um pouco.
- Pronto, patrãozinho. Sem som. Vai, lê duma vez.
- O princípio ativo do medicamento é o citrato de sildenafil.
- Sei.
- Veículos excipientes: celulose microcristalina…Celulose vem da madeira.
- Pau, portanto. Bom sinal.
- Onde foi parar a sua pouca educação, Maria Helena?
- Vai lendo, Horácio. Depois conversamos sobre a minha pouca educação.
- Cros… camelose sádica. Croscamelose. Castrepa, Maria Helena. Recuso-me a tomar um troço com esse nome. Deve ser alguma secreção de camelo. Se não for coisa pior.
- Não é camelose. Num tá vendo aí? É caRmelose. Deve ser algum adoçante artificial. Pro seu pau ficar doce, meu bem.
- Putz! Só rindo mesmo. A menopausa acabou com a sua lucidez, Maria Helena.
- Troco toda a lucidez do mundo por um pau tinindo de tesão por mim.
- Absurdo, absurdo.
- Que mais, que mais, Horácio?
- Dióxido de titânio.
- Ah, titânio. Pro negócio ficar bem duro.
- Índigo carmim…
- Índigo? Deve ser o que dá o azul da pilulinha.
- Será que esse negócio não vai deixar o meu pau azul, Maria Helena?
- E daí, se deixar? Você não sai por aí exibindo o seu pênis, que eu saiba.
- Ou sai?
- Mas, e se eu for a um mictório público? O que é que o cara ao lado não vai pensar do meu pinto azul?
- Diz que você é um alienígena, ora bolas. Que o seu corpo está pouco a pouco se adaptando à Terra, que ainda faltam alguns detalhes. Ou explica que você é um nobre, de sangue e pinto azul. Ou não diz nada, ora bolas. Acaba de mijar, guarda o pinto azul e vai embora, pô!
- Escuta. Agora vem a parte que explica como esse petardo funciona.
- Isso. Quero ver esse petardo funcionando direitinho.
- Presta atenção. ‘O óxido nítrico, responsável pela ereção do pênis, ativa a enzima guanilato ciclase, que, por sua vez, induz um aumento dos níveis de monofosfato de guanosina cíclico, produzindo um relaxamento da musculatura lisa dos corpos cavernosos do pênis e permitindo assim o influxo de sangue.
- Cacete!!
- Corpos cavernosos. Já pensou, Maria Helena? Corpos cavernosos sendo inundados de sangue? Puro Zé do Caixão.
- Corpo cavernoso só pode ser herança do homem das cavernas. Vocês homens evoluem muito lentamente.
- Pára de viajar, Maria Helena. Parece que fumou maconha.
- Não era má idéia. Prá relaxar. Vou roubar do Pedro Paulo. Eu sei onde ele esconde. Podíamos fumar juntos.
- Eu já tô relaxado. Tô até com sono, pra falar a verdade.
- Lê, lê, lê, lê aí. ….Você já dormiu tudo a que tinha direito nessa vida.
- Vou ler. ‘Todavia, o sildenafil não exerce um efeito relaxante diretamente sobre os corpos cavernosos..:’
- Não?
- Não, Maria Helena. Ele apenas ‘aumenta o efeito relaxante do óxido nítrico através da inibição da fosfodiesterase- 5, a qual’ – veja bem, Maria Helena, veja bem – ‘a qual é a responsável, pela degradação do monofosfato de guanosina cíclico no corpo cavernoso?’
- Ouviu isso? Degradação, Maria Helena. Dentro dos meus próprios corpos cavernosos. Degradante…
- Degradante é pau mole.
- Olha o nível, Maria Helena, olha o nível. Vamos ver os efeitos colaterais….
- Olha lá: dor de cabeça. Você sabe muito bem que se tem uma coisa que eu não suporto na vida é dor de cabeça.
- Na cultura judaico-cristã é assim mesmo, Horácio. Pra cabeça de baixo gozar, a de cima tem que padecer.
- Não me venha com essa sua erudição de internet, Maria Helena. Estamos off-line.
- Deixa de ser criança, Horácio. Se der dor de cabeça você toma um Tylenol, reza uma ave-maria, canta o ‘Hava Naguila’; que passa.
- Outro efeito colateral: rubor. Rá, rá. Vou ficar com cara de quê, Maria Helena? De camarão no espeto?
- Se for camarão com espeto, tá ótimo. Que mais, que mais?
- Enjôos. Óh céus. Enjôos…
- Você sempre foi um tipo enjoado, Horácio. Ninguém vai notar a diferença.
- Vamos ver o que mais… hum… dispepsia. Que lindo! Vou trepar arrotando na sua cara.
- Você me come por trás. Arrota na minha nuca.
- É brincadeira… É essa a sua idéia de amor, Maria Helena?
- Isso não tem nada a ver com amor, Horácio. Já disse: é profilaxia contra o câncer. E arrotar, você já arrota mesmo o dia inteiro, sem a menor cerimônia. Na mesa, na sala, em qualquer lugar.
- Como se você não arrotasse, Maria Helena.
- Mas não fico trombeteando os meus arrotos. Isso é coisa de machão broxa.
- Em vez de trepar com a esposa, fica arrotando alto pra se sentir o cara do pedaço.
- Como você é simplória, Maria Helena, como você é… menor. Desculpe, mas acho que o seu cérebro anda encolhendo, sabia? Ou mofando. Ou as duas coisas.
- Vai, Horácio, chega de conversa mole. E de pau idem. Pula os efeitos colaterais.
- Como, ‘pula os efeitos colaterais’? É porque não é você quem vai tomar essa meleca, né? Vou ler até o fim. Os efeitos colaterais são a parte mais importante. Olha lá: gases. Que é que tá rindo aí?
- Do efeito cú-lateral. Desculpa. Esse foi de propósito. Não agüentei.
- Admiro seu humor refinado, Maria Helena. Torna você uma mulher tão mais sedutora, sabia?
- Obrigada, Horácio.
- Agora, quanto aos seus gases, pode relaxar o esfíncter, meu filho. Numa boa. Tô tão acostumada que até sinto falta quando estou sozinha. Sério. Fico pensando: Ah, se o Horácio estivesse aqui agora pra soltar uma bufa de feijoada com cerveja na minha cara…
- Maria Helena, qualquer dia você vai ganhar o Oscar da vulgaridade universal.
- Vou dedicar a você.
- Vamos ver que mais temos aqui em matéria de efeitos colaterais
- Ah! Congestão nasal. Que gracinha. Vou ficar fanho, que nem o Donald. Qüém, qüém. Qüém.
- Um pateta com voz de pato. Perfeito.
- Ridículo. Absurdo. Idiota.
- Ridículo você já é, Horácio. E quem não é? Além do mais, é só calar a boca que você não fica fanho.
- Ah, tá. E se eu quiser falar alguma coisa na hora?
- Você não diz nada de interessante há mais de dez anos, Horácio.. Vai dizer justo na hora de trepar?
- Eu não nasci para dizer coisas interessantes a você, Maria Helena
- Já percebi.
- Hum. Ouve só: diarréia!
- Quê?
- É outro efeito colateral dessa bomba aqui. Fala sério, Maria Helena. Isto aqui é um veneno. Não sei como eles vendem sem receita.
- Deixa de ser pueril, Horácio. Imagina se alguém vai ter todos os efeitos colaterais ao mesmo tempo. No máximo um ou dois.
- A caganeira e os arrotos, por exemplo? Ou a ânsia de vômito e os gases?
- Faz um cocozinho antes. Pra esvaziar. Agora, Horácio. Eu espero.
- Eu não estou com vontade de fazer cocozinho nenhum, Maria Helena! Faça-me o favor. E olha aqui, mais um efeito colateral: visão turva.
- Você bota os seus óculos de leitura. E que tanto você quer ver que já não viu?
- Maria Helena, você não entendeu? Essa droga perturba seriamente a visão. Vou ficar cego por sei lá quantas horas, quantos dias. E tudo por causa de uma reles trepadinha? E se a minha visão não voltar? Vou andar de bengala branca pro resto da vida?
- Pode deixar que eu guio a sua bengala, Horácio. Olha, pensa no lado bom da cegueira: você vai poder me imaginar 20 anos mais moça. Trinta, se quiser.
- Maria Helena, desisto. Não vou tomar essa porcaria e tá acabado.
- Dá aqui essa cartela, Horácio. Abre a boca. Pronto. Engole. Olha a água aqui. Isso. Que foi? Engasgou, amor?! Tosse pra lá,ô! Me borrifou toda! Que nojo! Quer que bata nas suas costas? Aí, meu Deus! Horácio? Você está bem? Respira fundo! Isso, isso… E aí, amor? Melhorou? Morrer afogado num copo d’água ia ser idiota demais, até prum cara como você.
- Arrr! E com essa pílula monstruosa entalada na garganta, ainda por cima!
Ufff! Me dá mais água…
- Quanto tempo isso aí demora pra fazer efeito?
- Isso aí o quê?
- A pílula, Horácio, a pílula.
- E eu sei lá?
- Vê na bula, Horácio.
- Hum… tá aqui: 30 minutos.
- Ótimo. Dá tempo de ver o fim da minha novela.

4 04UTC junho 04UTC 2008

Relatividade

Filed under: Minha vida como ela é — ozzythewizard @ 3:47 PM

Pipoca. Não aquela que você faz em casa, mas a que é comprada na rua, em ambulantes.

(Comprei-a enquanto ia para uma festa de colação de grau. Algumas pessoas estranharam, um cara de terno e gravata comendo pipoca? “Excêntrico” – devem ter pensado.)

Doce toda vida. Sabor de infância.

Coisa necessária de se fazer pelo menos por algumas horas do dia: deslocar-se no tempo.

Algumas pessoas buscam retiros espirituais para descansar a mente. Deslocar-se no espaço na busca de paz. Sair da cidade para fazer trilha de bicicleta, caminhar no mato, acampar, nadar em rios. Estou aprendendo a deslocar no tempo, ir para minha infância, relembrar bons momentos, reviver sensações agradáveis.

E consegui fazer isto comendo pipoca. Aquele cheirinho de doce na boca, lembra a hora do recreio da 8ª série no Colégio Adventista Colorado.

Lembrei de Einstein, não sei porque. Acho que a questão de deslocar no espaço em busca de tranqüilidade me fez criar o paralelo com deslocar no tempo, pois, se os personagens literários possuem tempo e espaço psicológico, então também deslocarei em meu tempo psicológico. Se posso mudar o espaço físico ao meu redor, também mudarei meu espaço temporal (mesmo que na minha mente).

Tempo. Aliado de uns, inimigo de outros. Somos bons amigos, e, a cada alvorada ou pôr-do-sol, percebo o quanto sou responsável em apreender (e aprender) com sua presença.

Alguns farelos na lapela de meu terno denunciam minhas reflexões gastronômicas.

Vai começar a cerimônia. Luzes, música e o rigor dos apertos de mãos das formalidades.

Em um dos auditórios mais elegantes de Belo Horizonte, sou um menino dentro de um terno e gravata. Excêntrico. Fora do centro rígido da adultecência cheia de responsabilidades, contas e dificuldades.

(E lá no alto do palco, um casal de pardais cuida de seu ninho.)

7 07UTC maio 07UTC 2008

Macho Alfa – IV

Filed under: Macho Alpha — ozzythewizard @ 4:17 PM

Atitude macha é enfrentar a todos, mesmo quando as condições são totalmente adversas.

Brigas? Armas? Punhos cerrados?

Nada! O negócio é bater no peito e dizer “Eu acho isso!”… E se manter firme no leme de sua opinião, mesmo que as ondas da discórdia queiram afundar teus argumentos.

E mais, você está errado? Assuma!

Não há atitude mais macha que assumir na frente de todo mundo “Errei, pôrra! Não sou Deus!”. Dar as costas, e voltar ao trabalho.

E quando alguém pisar na bola contigo, e depois vier se desculpar, aja da mesma maneira. Um tapinha nas costas e diga “Ótimo! Agora vamos em frente”.

Macho que é macho não fica dando chiliques, fazendo fofoca, beicinho ou torcendo o nariz pra outras pessoas, principalmente pra outro macho, senão rola porrada.

A vida deve ser simples, tranquila e bem resolvida, mesmo que seja aos berros, se precisar, ou calmamente, se a situação for mais delicada. O importante é manter olhos nos olhos do, ou dos, adversário e uma paz de mosteiro budista dentro de você, mesmo que por fora sua voz possa ser ouvida a dois quarteirões de distância, seu coração deve bater como o de um bebê.

Tudo isto pra dizer que vou ao campo ver o jogo Cruzeiro X Boca Júniors. Berros, xingos e gestos violentos não vão me transformar num bruto. Num ogro, talvez.

Saludos!

E…

“Maradona ¿por qué no te callas?”

7 07UTC fevereiro 07UTC 2008

Macho Alpha – parte II

Filed under: Macho Alpha — ozzythewizard @ 2:40 AM

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Homem que é homem

Luis Fernando Verissimo


Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Homem que é Homem não come suflê. Homem que é Homem — de agora em diante chamado HQEH — não deixa sua mulher mostrar a bunda para ninguém, nem em baile de carnaval. HQEH não mostra a sua bunda para ninguém. Só no vestiário, para outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos, dá briga.
HQEH só vai ao cinema ver filme do Franco Zeffirelli quando a mulher insiste muito, e passa todo o tempo tentando ver as horas no escuro. HQEH não gosta de musical, filme com a Jill Clayburgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy, e que dos novos, tirando o Clint Eastwood, é tudo veado.

HQEH não vai mais a teatro porque também não gosta que mostrem a bunda à sua mulher. Se você quer um HQEH no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa, mata.E o HQEH tem razão. Confesse, você está com ele. Você não quer que pensem que você é um primitivo, um retrógrado e um machista, mas lá no fundo você torce pelo HQEH. Claro, não concorda com tudo o que ele diz. Quando ele conta tudo o que vai fazer com a Feiticeira no dia em que a pegar, você sacode a cabeça e reflete sobre o componente de misoginia patológica inerente à jactância sexual do homem latino. Depois começa a pensar no que faria com a Feiticeira se a pegasse. Existe um HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação. Sim, de acomodação. Quantas vezes, atirado na frente de um aparelho de TV vendo a novela das 8 — uma história invariavelmente de humilhação, renúncia e superação femininas — você não se perguntou o que estava fazendo que não dava um salto, vencia a resistência da família a pontapés e procurava uma reprise do Manix em outro canal? HQEH só vê futebol na TV. Bebendo cerveja. E nada de cebolinhas em conserva! HQEH arrota e não pede desculpas.

*

Se você não sabe se tem um HQEH dentro de você, faça este teste. Leia esta série de situações. Estude-as, pense, e depois decida como você reagiria em cada situação. A resposta dirá o seu coeficiente de HQEH. Se pensar muito, nem precisa responder: você não é HQEH. HQEH não pensa muito!

Situação 1

Você está num restaurante com nome francês. O cardápio é todo escrito em francês. Só o preço está em reais. Muitos reais. Você pergunta o que significa o nome de um determinado prato ao maître. Você tem certeza que o maître está se esforçando para não rir da sua pronúncia. O maître levará mais tempo para descrever o prato do que você para comê-lo, pois o que vem é uma pasta vagamente marinha em cima de uma torrada do tamanho aproximado de uma moeda de um real, embora custe mais de cem. Você come de um golpe só, pensando no que os operários são obrigados a comer. Com inveja. Sua acompanhante pergunta qual é o gosto e você responde que não deu tempo para saber. 0 prato principal vem trocado. Você tem certeza que pediu um “Boeuf à quelque chose” e o que vem é uma fatia de pato sem qualquer acompanhamento. Só. Bem que você tinha notado o nome: “Canard melancolique”. Você a princípio sente pena do pato, pela sua solidão, mas muda de idéia quando tenta cortá-lo. Ele é um duro, pode agüentar. Quando vem a conta, você nota que cobraram pelo pato e pelo “boeuf’ que não veio. Você: a) paga assim mesmo para não dar à sua acompanhante a impressão de que se preocupa com coisas vulgares como o dinheiro, ainda mais o brasileiro; b) chama discretamente o maître e indica o erro, sorrindo para dar a entender que, “Merde, alors”, estas coisas acontecem; ou c) vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho contra a parede e, segurando o gargalo, grita: “Eu quero o gerente e é melhor ele vir sozinho!

Situação 2

Você foi convencido pela sua mulher, namorada ou amiga — se bem que HQEH não tem “amigas”, quem tem “amigas” é veado — a entrar para um curso de Sensitivação Oriental. Você reluta em vestir a malha preta, mas acaba sucumbindo. O curso é dado por um japonês, provavelmente veado. Todos sentam num círculo em volta do japonês, na posição de lótus. Menos você, que, como está um pouco fora de forma, só pode sentar na posição do arbusto despencado pelo vento.

Durante 15 minutos todos devem fechar os olhos, juntar as pontas dos dedos e fazer “rom”, até que se integrem na Grande Corrente Universal que vem do Tibete, passa pelas cidades sagradas da Índia e do Oriente Médio e, estranhamente, bem em cima do prédio do japonês, antes de voltar para o Oriente. Uma vez atingido este estágio, todos devem virar para a pessoa ao seu lado e estudar seu rosto com as pontas dos dedos. Não se surpreendendo se o japonês chegar por trás e puxar as suas orelhas com força para lembrá-lo da dualidade de todas as coisas. Durante o “rom” você faz força, mas não consegue se integrar na grande corrente universal, embora comece a sentir uma sensação diferente que depois revela-se ser câimbra. Você: a) finge que atingiu a integração para não cortar a onda de ninguém; b) finge que não entendeu bem as instruções, engatinha fazendo “rom” até o lado daquela grande loura e, na hora de tocar o seu rosto, erra o alvo e agarra os seios, recusando-se a soltá-los mesmo que o japonês quase arranque as suas orelhas; c) diz que não sentiu nada, que não vai seguir adiante com aquela bobagem, ainda mais de malha preta, e que é tudo coisa de veado.

Situação 3

Você está numa daquelas reuniões em que há lugares de sobra para sentar, mas todo mundo senta no chão. Você não quis ser diferente, se atirou num almofadão colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa. Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode. O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu copo de vinho enquanto usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho. Aí o cabeleireiro de cabelo mechado ao seu lado oferece:

— Se quiser usar o meu…

— O seu…?

— Joelho.

— Ah…

— Ele está desocupado.

— Mas eu não o conheço.

— Eu apresento. Este é o meu joelho.

— Não. Eu digo, você…

— Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu estivesse oferecendo a perna toda você ia pedir referências. Ti-au.

Você: a) resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças; b) leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização; ou c) pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.

Se você escolheu a resposta a para todas as situações, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta b, não é um HQEH. E se você escolheu a resposta c, também não é um HQEH. Um HQEH não responde a testes. Um HQEH acha que teste é coisa de veado.

 

*

Este país foi feito por Homens que eram Homens. Os desbravadores do nosso interior bravio não tinham nem jeans, quanto mais do Pierre Cardin. O que seria deste pais se Dom Pedro I tivesse se atrasado no dia 7 em algum cabeleireiro, fazendo massagem facial e cortando o cabelo à navalha? E se tivesse gritado, em vez de “Independência ou Morte”, “Independência ou Alternativa Viável, Levando em Consideração Todas as Variáveis!”? Você pode imaginar o Rui Barbosa de sunga de crochê? O José do Patrocínio de colant? 0 Tiradentes de kaftan e brinco numa orelha só? Homens que eram Homens eram os bandeirantes. Como se sabe, antes de partir numa expedição, os bandeirantes subiam num morro em São Paulo e abriam a braguilha. Esperavam até ter uma ereção e depois seguiam na direção que o pau apontasse. Profissão para um HQEH é motorista de caminhão. Daqueles que, depois de comer um mocotó com duas Malzibier, dormem na estrada e, se sentem falta de mulher, ligam o motor e trepam com o radiador. No futebol HQEH é beque central, cabeça-de-área ou centroavante. Meio-de-campo é coisa de veado. Mulher do amigo de Homem que é Homem é homem. HQEH não tem amizade colorida, que é a sacanagem por outros meios. HQEH não tem um relacionamento adulto, de confiança mútua, cada um respeitando a liberdade do outro, numa transa, assim, extraconjugal mas assumida, entende? Que isso é papo de mulher pra dar pra todo mundo. HQEH acha que movimento gay é coisa de veado.HQEH nunca vai a vernissage.HQEH não está lendo a Marguerite Yourcenar, não leu a Marguerite Yourcenar e não vai ler a Marguerite Yourcenar.

HQEH diz que não tem preconceito mas que se um dia estivesse numa mesma sala com todas as cantoras da MPB, não desencostaria da parede.

Coisas que você jamais encontrará em um HQEH: batom neutro para lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, o telefone do Gabeira, entradas para um espetáculo de mímica.

Coisas que você jamais deve dizer a um HQEH: “Ton sur ton”, “Vamos ao balé?”, “Prove estas cebolinhas”.

Coisas que você jamais vai ouvir um HQEH dizer: “Assumir”, “Amei”, “Minha porção mulher”, “Acho que o bordeau fica melhor no sofá e a ráfia em cima do puf”.

Não convide para a mesma mesa: um HQEH e o Silvinho.

HQEH acha que ainda há tempo de salvar o Brasil e já conseguiu a adesão de todos os Homens que são Homens que restam no país para uma campanha de regeneração do macho brasileiro.

Os quatro só não têm se reunido muito seguidamente porque pode parecer coisa de veado.

 

Texto extraído do livro “As mentiras que os homens contam, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, pág. 89.

Imagens extraídas do site http://www.laerte.com.br

 Homem de 2ª 

 

 

 

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